• Retrospectiva B2B 2011 31 de agosto de 2011

    A edição de 2011 do Back2Black infelizmente chegou ao fim. Quem foi aproveitou, dançou até se acabar, comeu diversos quitutes e ainda de quebra pode comprar uns livros e quem sabe cantar em um dos vagões. A Estação Leopoldina e o Bourbon Street tremeram! Quem não foi… perdeu.

    Mas não se desesperem, ano que vem tem mais e enquanto isso vocês podem conferir o que rolou aqui pelo site. Temos vídeos dos shows e entrevistas com os artistas, equipe técnica e até com o público. Resenhas das apresentações e das conferências, além de muitas e muitas fotos. Só fica por fora quem quiser.

    Abaixo a relação dos eventos que transcorreram durante esses 4 dias de festival entre Rio e São Paulo. Até 2012 galera!

    26/08 – Conferência: Democratização, não violência e mídias sociais com Jamila Raqib e Wael Ghonim
    Palco Estação Oi: Tinariwen / Ana Moura + Gilberto Gil / Macy Gray
    Palco Compacto Petrobras: Tono / Nicolas Krassik e Os Cordestinos + Carlos Malta
    Palco Circo: Charles Gavin / Pathy DeJesus + Nepal

    27/08 – Conferência: Ecologia com Marina Silva, Gabriela Chichilnisky e Daniel Cohn-Bendit
    Palco Estação Oi: Oumou Sangaré / Chaka Khan / Jorge Ben Jor
    Palco Compacto Petrobras: Qinho + Jards Macalé / Moreno Veloso + Domenico + Pedro Miranda + Luis Filipe de Lima
    Palco Circo: Os Ritmos Digitais / Badenov + MOO

    28/08 – Conferência: O futuro das comunidades com Nanko van Buuren, Luiz Eduardo Soares e Sueli Carneiro
    Palco Estação Oi: ASA / Aloe Blacc / Seu Jorge & Almaz
    Palco Compacto Petrobras: Paraphernália + BNegão
    Palco Circo: Bailão Black

    30/08 – Palestra de apresentação com José Eduardo Agualusa
    Bourbon Street: Tinariwen / Aloe Blacc

     

     

     

  • Dance e Reflita 29 de agosto de 2011

    Muito bem acompanhado pelos músicos do Nação Zumbi (o Almaz), Seu Jorge foi o fechamento que o festival esperava. Cheio de sentidos e mensagens para quem quisesse perceber, foi um show para fazer mexer. Fazer mudar. E, de fato, ninguém ficou parado na Leopoldina.

    Back2Black 2011 - Seu Jorge & Almaz

    Ainda não eram seis da tarde de domingo, Seu Jorge ainda não tinha chegado à Estação Leopoldina, e a conferencista Sueli Carneiro era certeira: “o Back2Black é ótimo porque tira a cultura negra do folclórico e do arcaico, e mostra que ela é contemporânea, faz parte da atualidade.” E mais: “O futuro da democracia e da liberdade do Brasil passa pela questão racial.” Sintoticamente, o último dia do festival caiu em um 28 de agosto, mesmo dia do discurso histórico de Martin Luther King, aquele do “eu tenho um sonho…”.

    Pois foi ao negro brasileiro Seu Jorge que coube encerrar a programação do palco principal do Back2Black de 2011. A Seu Jorge e Almaz coube o mesmo privilégio de encerrar a noite que tinha cabido a Jorge Ben Jor, um dia antes. E, para completar, o show foi de “visitas”, como ele mesmo definiu, a um repertório de muitos clássicos brasileiros e alguns estrangeiros. Oportunidade perfeita para “atualizar” a cultura negra em um espaço mais do que nobre. Sueli deve ter vibrado muito com o som de Seu Jorge.

    Se não vibrou, a Leopoldina inteira o fez. Depois de uma longa introdução de reverbs e microfonias comandados pelo pela pedaleira da guitarra de Lúcio Maia, Seu Jorge começou o show na flauta transversa e puxou do canto mais grave da garganta Errare Humanum Est, do xará Ben Jor. Era o início da viagem dentro das mentes das pessoas. Back2Black, afinal, quer reflexão. Reflexão e dança.

    Dança veio com The Model (Kraftwerk), de leve, e Carolina (próprio Seu Jorge), aí sim com força. E se o povo começou a dançar, não tinha mais o que pensar. Tinha que continuar dançando. Pai João (Tribo Massai), uma breve citação a A Rã na flauta e Cristina (Tim Maia). Joga fácil esse Seu Jorge. E ainda rolou outro Jorge Ben, Xica da Silva, e o rei do pop, Rock With You.

    Back2Black 2011 - Seu Jorge & Almaz

    Dançando e refletindo, não havia melhor jeito para terminar o domingo e começar a próxima semana. Pensem em Seu Jorge, em Sueli Carneiro, e em todos os outros nomes que mexeram com a cabeça de vocês nesses três dias. Essas foram as mensagens do festival. Aproveitem. Boa semana.

  • À noitinha com o Paraphernalia 29 de agosto de 2011

    Se domingo é tradicionalmente dia de cineminha, hoje o clima foi de trilha sonora. A plateia encheu o espaço em frente ao palco Compacto Petrobras para acompanhar os dois sets que a turma do Paraphernália apresentou neste domingo. Ao contrário dos outros dias, quando duas bandas se apresentavam por lá durante os intervalos dos shows no palco principal, neste domingo a responsabilidade ficou toda a cargo do septeto.

    Back2Black 2011

    Depois de fazer carreira em pequenas casas do Rio, o Paraphernália já sobe aos palcos da cidade num clima de que conhece todo mundo que os assiste. A intimidade deles com a plateia é recíproca. Em momentos como “Salomão”, o trombonista Marlon Sette não se acanhou para comandar o ritmo das palmas e dos coros de quem assistia a tudo dançando com sorriso no rosto. As dinâmicas de músicas como “Tema do Paraphernália” e “A fúria do dragão” já estão tão consolidadas na cabeça de uma certa parte do público que é possível ver a galera dublando no tempo de cada instrumento. Para quem faz música instrumental, isso é provavelmente o mais próximo possível que sente um cantor que ouve a plateia cantar sua canção.

    Para o segundo set, veio um convidado especial. BNegão se juntou para atribuir palavras à pancada sonora dos caras. A virulência de “Funk até o caroço” já deu o recado do que o vocalista queria imprimir com a big band que acabara de ganhar. Passando pelo hit do Seletores de Frequência “O processo é lento”, até os clássicos benjorianos com “Umabarauma” e “Hermes Trismegisto”, até “Soul Makossa”, de Mano Dibango. E quando os créditos subiram, a plateia se foi feliz.

  • Uma Dança, Sabe? 28 de agosto de 2011

    Back2Black 2011

    Pressão lá em cima com a banda de sete pessoas quebrando tudo, vêm as duas backings, e entra Aloe Blacc. Começa a introdução instrumental do primeiro hit dele, I Need A Dollar. E quando ele se aproxima do microfone… “Hey brother, watch your little lady, she’s a little faster than you think…”

    Pra quem não entendeu: criou-se uma expectativa, e de repente foi-se para o outro lado. Tipo uma dança, sabe? Um quadril que ameaça e engana, um beijo que vira sorriso e olhar pro lado, a tal da sedução. Uma música que se promete, e de repente outra. Aloe Blacc no palco é isso: truques de sedução que bagunçam o que se espera, mas que no final dão certo. Tanto que a Leopoldina pediu mais, e mais.

    Do começo com Hey Brother, Blacc foi para uma bênção pessoal a James Brown, Stevie Wonder, Marvin Gaye e Al Green. Não só as grandes referências dele, mas os caras que levaram a malícia africana pra cama, pra política, pro orgulho de ser o que são (desses, só Gaye já morreu) – negros. Pois Blacc, assim como Back2Black, tem negro no nome. E cada nota dele reforça isso.

    A tal bênção antecedeu You Make Me Smile, com todo mundo – todo mundo mesmo – de braços para o alto cantando. A mesma coisa com Green Lights. Mas tinha mais: citando um programa de tv americano, Soultrain, Blacc abriu espaço na plateia e chamou só os que queriam dançar mesmo. Todo mundo queria. Virou baile black.

    O show ia chegando ao fim, e aí sim era hora dela. Não dava mais pra fugir. Ele tinha começado com a promessa (sugestão?) de I Need A Dollar e teria que cumprir. É assim que funciona. O drible é mais bonito quando é gol. A cantada só é perfeita quando a moça cai. O tecladinho batendo no mesmo acorde chamou e veio I Need A Dollar como todos esperavam. E ainda uma extensão em reggae, “um dos mais bonitos tipos de soul music”, segundo ele.

    Blacc ainda mandou No Woman No Cry e Loving You Is Killing Me, antes de sair do palco ovacionado. E tinha mais: na volta, soltou a voz fora do microfone, de costas, e virou segurando a nota até estourar no microfone o clássico de The Mamas and The Papas: California Dreaming. Ninguém, ninguém mesmo, esperava tanto.

    Back2Black 2011

  • Nova Amiguinha 28 de agosto de 2011

    Back2Black 2011 - ASA

    Palco vazio, batidinha eletrônica, e um a um foram subindo os seis integrantes da banda de Asa. Quando chegou a vez da nigeriana, ela apareceu meio tímida, de saia godê vermelha de cintura alta e óculos grandões de armação manchada. Um show inteiro depois, e lá estava ela aprendendo a pronunciar bexu, não, bei-jou (beijo) cheia de risos soltos, toda enturmada. A gringa foi apresentada ao calor carioca sem nem precisar descer de onde estava…

    A terceira atração africana do Back2Black era a menos típica. Com letras em inglês, e uma ou outra em iorubá, Asa foi se apresentando com muita música, e deixou a falação para a segunda metade. Na parte da música, ela foi bem: o pop elegante soa cool como uma Erykah Badu. Até trompete, ela arriscou, depois de sair de cena rapidamente pra banda comandar um pouquinho.

    Foi aí, depois do trompete, que Asa ganhou a Leopoldina. Perguntou como o pessoal achava que se pronunciava o nome dela. A resposta até veio certa (Acha), mas ela não se rendeu. Ásia? Asa? Záza? Bízarre? E em seguida, comandou todo mundo: Aaaaaaaaa… Chaaaaaaaaa…. A cariocada adorou, lógico.

    Ela ainda brincou de vocalises, dançou com os braços, aprendeu a pronunciar caipirinha, feijoada, Lapa e deve ter achado o Rio um barato. O povo daqui, certamente, achou aquela gringa muito legal.

  • Painel: o futuro das comunidades 28 de agosto de 2011

    A exemplo dos outros dois dias de festival Back2Black, a abertura de hoje ficou a cargo das discussões sobre temas inerentes à cultura negra. Para falar sobre “O futuro das comunidades”, o público ouviu e fez perguntas para o holandês Nanko van Buuren (fundador do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social – IBISS), o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares e Sueli Carneiro (ativista do movimento negro brasileiro), com a mediação de Paulo Lins (autor do livro “Cidade de Deus”).

    O primeiro a expor suas ideias foi o holandês, cujo instituto atua em 11 áreas  de risco no Rio de Janeiro. Como sabemos, ainda falta estrutura nas comunidades e é necessário investir em educação, saúde e segurança para que a realidade dos cidadãos tenha mudanças significativas. Para Van Buuren, com o advento das UPPs, a situação ainda não mudou muito, principalmente porque o Estado é representado por militares, que não inspiram confiança na população, devido aos inúmeros casos de violência contra inocentes partindo de policiais.

    Sobre isso, Luiz Eduardo Soares explicou que, apesar do projeto estar no caminho certo, ainda é preciso mudar a formação e, com isso, a cultura institucional da nossa polícia, para que as pessoas não temam, e sim confiem nos agentes.

    Para ele, há ainda o problema da criminalização da pobreza, pois estudos indicam que os jovens pobres e negros sofrem preconceito e são equivocadamente relacionados à criminalidade apenas por apresentarem estas características. Além disso, ainda ligado à violência, há o problema da ressocialização de presos, que enfrentam dificuldades na hora de voltar à sociedade e consequentemente ao mercado de trabalho. O IBISS, em que trabalha Van Buuren, tem projetos que fazem a ponte entre ex-funcionários do tráfico e empresas dispostas a colaborar no processo de ressocialização, entre outras vertentes de atuação.

    Luiz Eduardo apresentou dados de que os jovens de 18 anos negros tem 2,4 anos de escolaridade a menos do que os brancos da mesma faixa etária, mesmo nível que já se apresentava há décadas. Mesmo assim, ele defendeu que o país tem mudado, sim, mas precisa de menos corrupção em todos os setores para que haja melhorias significativas nas estruturas.

    Sueli Carneiro, que é ativista do movimento negro brasileiro, abriu seu discurso no painel lembrando o discurso histórico de Martin Luther King, há exatamente 48 anos, neste mesmo dia 28 de agosto. Ela defendeu, em vários pontos da discussão, que a cultura negra tem sido vista apenas por um lado folclórico, nas suas formas mais arcaicas, e que o que ela influencia na contemporaneidade é a parte que foi “embranquecida”. Ela deu exemplos de expoentes da cultura, como Machado de Assis e  o geógrafo Milton Santos, que foram absorvidos como “cultura brasileira” e não “cultura negra”.

    Questionada sobre o preconceito no Brasil, Sueli explicou que as pessoas brancas são beneficiárias do racismo, mesmo que não assinem embaixo. Para ela, só haverá democracia racial no país quando confessarmos que ele existe, sim. Apenas assumindo isso, poderemos seguir adiante e garantir uma sociedade justa e livre de preconceitos. Parafraseando Martin Luther King, concluiu: “Eu tenho um sonho de que este país seja capaz de construir uma verdadeira democracia social.”